Conference or Unconference ?

Conferência ou Desconferência?

Conferência ou InConferência? O que precisa de saber antes de se inscrever num evento

"E se eu não souber o que dizer?"

Comecemos por aqui, porque é aqui que a maioria das pessoas hesita antes de se inscrever num evento.

Ouviu a palavra "inconferência" e a sua primeira reação foi uma mistura de curiosidade e ansiedade. Sem agenda fixa? Sem oradores confirmados? Onde estão as certezas de uma conferência normal — o programa, o horário, os títulos das sessões que pode ler com antecedência e decidir se valem a pena o seu tempo?

Se isto lhe dá um nó no estômago, não está sozinho. É a reação mais comum, e é completamente racional. Fomos todos treinados para associar valor à estrutura: quanto mais definido o programa de um evento, mais "sério" parece. Uma inconferência parece o oposto disso — parece caos.

Exceto que não é. E os medos mais comuns têm todos respostas:

"Não tenho nada de relevante para partilhar."
Não precisa de ser um especialista para propor um tópico de sessão. Precisa de uma pergunta genuína, um problema que esteja a tentar resolver, ou uma curiosidade que outras pessoas na sala provavelmente também partilham. As melhores sessões de inconferência nascem de perguntas, não de respostas prontas.

"Vou ficar sem saber o que fazer."
Há sempre uma estrutura mínima — geralmente um quadro de sessões que se preenche no início do dia do evento, com horários definidos para cada bloco. A liberdade está no conteúdo, não no caos total.

"E se ninguém aparecer na minha sessão?"
Numa inconferência, isto tem um nome e a sua própria regra: a Lei dos Dois Pés. Se uma sessão não lhe está a ser útil — quer a tenha proposto, quer esteja apenas a assistir — tem permissão explícita para se levantar e ir para outro lugar. Ninguém se ofende. Foi exatamente assim que o formato foi concebido para funcionar.

Se restar uma última dúvida, agarre-se a ela. Geralmente desaparece nos primeiros vinte minutos do evento.


O que é uma conferência, exatamente

Um evento de formato de conferência tradicional segue uma lógica de transmissão: alguém preparou conteúdo com antecedência, sobe a um palco (físico ou virtual), e a audiência recebe-o. Há um programa fechado, oradores confirmados semanas ou meses antes, e Q&A no final, se houver tempo.

É um formato eficiente para transmitir conhecimento já validado, histórias de casos bem estruturadas e inspiração de pessoas que já percorreram o caminho. Funciona particularmente bem quando o objetivo do evento é aprender com alguém que já sabe.

O que é uma inconferência

Uma inconferência inverte a lógica: em vez de conteúdo pré-definido entregue a uma audiência passiva, a agenda do evento é construída pelas pessoas na sala, no próprio dia. Formatos como o Open Space Technology popularizaram isto — alguém propõe um tópico, escreve-o num quadro, as pessoas escolhem onde querem estar, e as conversas acontecem em grupos pequenos e fluidos.

Não há palco. Há círculos de cadeiras. Não há "aqueles que sabem mais" a falar para "aqueles que sabem menos" — apenas colegas a trabalhar em problemas semelhantes, em tempo real.


As vantagens de cada formato de evento

Conferência:

  • Conteúdo preparado, testado, menor risco de "tempo desperdiçado"
  • Fácil de decidir com antecedência o que vale a pena assistir
  • Bom para inspiração e uma visão geral de um tópico

Inconferência:

  • A conversa vai exatamente para onde a sala precisa naquele momento
  • Networking muito mais profundo — fala com pessoas que partilham o seu problema específico, não com quem se sentou ao seu lado por acaso
  • Ninguém sai tendo ouvido o que já sabia; o conteúdo ajusta-se ao nível de quem está na sala
  • Menor custo de produção, já que o evento não depende de convencer dezenas de oradores a preparar apresentações meses antes

Três eventos reais que provam que o formato funciona

A teoria é agradável, mas o que realmente convence os céticos é ver o formato em ação. Nos últimos anos organizei e participei em vários eventos de formato de inconferência, e cada um mostra uma faceta diferente do porquê de isto funcionar.

#play14 — brincadeira séria, entre profissionais

O #play14 nasceu no Luxemburgo em 2014 e é agora um movimento internacional sem fins lucrativos, com edições em dezenas de cidades em dezenas de países. É um evento dedicado a jogos e práticas lúdicas para facilitadores, agile coaches, formadores e equipas de RH — e no seu centro, é uma inconferência construída em torno do Open Space Technology.

Tenho o privilégio de organizar edições do #play14, e o que mais me impressiona, edição após edição, é ver a energia da sala mudar no momento em que as pessoas percebem que o programa é delas. No #play14 não há público passivo: cada participante é também um potencial facilitador de jogos, e a "Lei dos Dois Pés" é levada tão a sério que, se uma sessão se prolongar demasiado, o próprio grupo cantará em tom de brincadeira para o facilitador terminar. Isso só acontece porque as pessoas sentem que o evento lhes pertence, não porque é um espetáculo que estão a assistir de fora.

Agile Lean Europe (ALE) — uma inconferência que viaja pela Europa

A Agile Lean Europe é uma rede aberta de comunidades ligadas ao pensamento Agile e Lean, e o seu evento principal — a ALE Unconference — acontece todos os anos numa cidade europeia diferente, organizada por voluntários da comunidade local. Tal como o #play14, funciona com Open Space: não há uma lista fechada de oradores convidados, e o programa do dia surge das propostas de quem está presente.

O que a ALE mostra bem é a escala: centenas de pessoas de dezenas de países, muitas vezes trazendo as suas famílias, conseguem cocriar uma agenda relevante em poucas horas, todos os anos, numa nova cidade. Isso só é possível porque o formato não depende de uma organização central que já sabe o que importa — depende do conhecimento distribuído pela comunidade que comparece.

Agile Coach Camp Portugal (ACC PT) — a inconferência que trouxemos para cá

Depois de o formato Agile Coach Camp já ter viajado por países como os Estados Unidos, o Reino Unido, a Itália, os Países Baixos e a Espanha, ajudei a trazê-lo para Portugal. O ACC PT segue o mesmo princípio: não há visitantes, apenas participantes. Todos chegam com a sua própria experiência, as suas próprias dúvidas e os seus próprios problemas reais, e a agenda de dois dias e meio é construída no local, com base no que a comunidade agile portuguesa mais precisa de discutir naquele momento.

O que aprendi a organizar o ACC PT é que o papel do organizador muda radicalmente neste tipo de evento: uma vez que o local, a comida e uma estrutura mínima estão estabelecidos, o trabalho passa para os participantes. E isso, ano após ano, tem sido suficiente para gerar algumas das conversas mais honestas e úteis que vi num evento profissional em Portugal.


Porque funciona o formato de inconferência

Não é magia, é design. Três princípios explicam o porquê — e os três exemplos acima mostram-nos na prática:

1. As pessoas envolvem-se mais com aquilo que ajudaram a criar. No #play14, na ALE e no ACC PT, qualquer pessoa que propõe uma sessão e vê outras pessoas aparecerem porque escolheram estar lá — não porque estava no programa — sente um nível de energia e participação estruturalmente diferente de uma audiência passiva.

2. O conhecimento certo já está na sala. Em qualquer um destes três eventos, a experiência relevante nunca está apenas nas mãos dos organizadores. Está espalhada pelos participantes. O formato é um mecanismo para que essa experiência emerja sem meses de curadoria de oradores.

3. A auto-organização reduz o desperdício. Em vez de um comité a adivinhar meses antes o que será importante, o próprio grupo — seja no #play14, na ALE ou no ACC PT — ajusta a agenda ao que é realmente relevante naquele momento, antes, durante e entre as sessões.


Então, vai inscrever-se no próximo evento?

Nem toda a conversa precisa de um palco. Por vezes, a melhor sessão num evento é aquela que ainda não tem nome — porque ainda não foi proposta. E pode muito bem ser a sua.

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